sábado, 1 de setembro de 2012

Arteterapia nas organizações


Por Márcia Mª Accioly Brelaz de Castro

Em 2008, atendendo a convite de representantes do Projeto Casa da Criança, orientamos, voluntariamente, trabalho arteterapêutico para um grupo de sete funcionárias de abrigo público da cidade do Recife. Essa instituição acolhe e "materna", temporariamente, crianças de 0 a 6 anos em situação de risco, cujos pais sobrevivem miseravelmente não podendo se responsabilizar pela sua criação. Em menor número, abriga também crianças órfãs ou vítimas de maus tratos.

Arteterapia, em poucas palavras, é um processo de autoconhecimento. Como canal terapêutico, utiliza propostas para viabilizar a expressão dos sentimentos, através de linguagens artísticas. Privilegia a linguagem imagética, facilitando o acesso aos conteúdos mentais inconscientes.

Assim, a Arteterapia contribui para o fortalecimento das energias interiores, diante das ameaças e oportunidades que a vida oferece. Pode ser realizada individualmente ou em grupo. Neste último caso, tanto possibilita a percepção dos próprios sentimentos quanto a dos sentimentos do outro, permitindo ainda a constatação de que muitos desses são semelhantes aos seus. As práticas arteterapêuticas podem se apoiar em diferentes bases teóricas. A experiência realizada se respaldou na perspectiva junguiana. Sete mulheres, sete destinos, sete caminhos. As participantes, em sua maioria, eram cuidadoras das crianças abrigadas. Nos primeiros passos da jornada, inquietações e dificuldades logo se apresentaram. Gradativamente, porém, cederam lugar ao processo de florescimento do grupo, que abraçou todas as propostas. As cuidadoras expressavam suas emoções através de registros plásticos, cênicos ou poéticos, de significativo valor subjetivo, tendo sempre a Arteterapia como fio condutor. Nas oficinas semanais, expectativas, medos e desejos compartilhados, em uma pequena sala daquele abrigo, formaram um turbilhão de ideias, descobertas, emoções e vida.

Durante seis meses, estórias e histórias foram contadas, tintas e argila foram utilizadas sugestivamente, a palavra poética foi ouvida e tecida com imagens e desejos de transformação. Nesse universo vivenciamos emoções, compartilhamos sonhos, sensibilizando o lado humano e criativo de cada uma e de todas as participantes. A produção expressiva expandiu-se de modo intenso e revigorante para o grupo.

Na realização do trabalho, optamos por uma incursão na mitologia através da utilização das "deusas" como símbolo das vivências humanas. A exploração desses arquétipos levou as participantes à construção de metáforas e analogias, no confronto com a realidade particular da vida de cada uma. Permitiu-lhes ainda identificar diferentes tipos de energias do feminino, que, quando integradas em cada pessoa, favorecem seu desenvolvimento no mundo contemporâneo.

A experiência possibilitou, ainda, perceber os desafios e estresses frequentes no fazer do cuidador. O fio tênue entre o desamparo e o amparo eventual é a tônica da maioria das crianças abrigadas. As cuidadoras têm de aprender a transitar por situações extremas de violência sem perder o equilíbrio bio-psíquico mínimo que suas atividades profissionais exigem.

Assim, é absolutamente necessário que o cuidador esteja sensibilizado para a importância de cuidar-se. Ao fazê-lo, estará fortalecendo a autoestima, reconhecendo seus mecanismos emocionais e aprendendo a lidar com eles, sem se contaminar por negativismos. Quando fortalecido, disporá de novos recursos para lidar com as pressões externas e com seus limites individuais. Reconhecendo-se poderá identificar seu espaço no mundo, perscrutar modelos de atuação profissional e ressignificar o seu "fazer", descobrindo sua própria originalidade. É do que nos fala uma das participantes no seu poema "Descoberta", construído e apresentado ao final da jornada:

"Descobri ao longo do processo que o ‘CANTO' pode ser qualquer canto (...)

Descobri que a minha nudez
Nada mais é do que me colocar diante do mundo em verso e prosa E me sentindo sempre formosa, mais linda e mais poderosa".

No mesmo sentido, o grupo, em uma de suas produções coletivas finais intitulada "Arte Vida e Transformação", nos diz: "Tivemos a oportunidade de colher e plantar; de criar e recriar; de fazer nascer dentro de cada uma de nós novas emoções, sensações que nos fortalecem e nos tornam eternamente ‘deusas'. (...)

Éramos tímidas, ficamos determinadas - coragem. (...)

Aprendemos e construímos a partir de nossas histórias e partilhamos com todas nosso eterno desejo de ‘ser' - vida. (...)

Construímos assim, coletivamente, uma nova maneira de ver e sentir a vida - passado, presente e futuro".
Concluída a prática, estava visível a alegria de todas ante a riqueza de suas produções. Os depoimentos sobre a jornada e as trocas de afeto nos emocionaram por havermos testemunhado o crescimento individual e coletivo daquelas mulheres. Aprender a lidar com as adversidades de forma construtiva é processo exigente para todas as pessoas.

Retomando a questão inicial "quem cuida do cuidador?", persiste nossa convicção de que cuidar-se e ser cuidado são condições indispensáveis em nossa própria construção como cuidadores da vida. Em particular, para podermos melhor cuidar de nossas crianças.

* Colaborou para a produção deste artigo Tânia Vargas - Arteterapeuta.